O que uma das principais bacias leiteiras dos EUA pode ensinar ao Brasil?
Aleris Milk Route levou clientes e especialistas a Idaho para conhecer diferentes pontos da cadeia leiteira
Foi para responder a essa pergunta na prática que a Aleris levou clientes e parceiros para uma imersão técnica em Idaho, nos Estados Unidos, entre os dias 21 e 30 de agosto. Na terceira edição do Aleris Milk Route, profissionais brasileiros acompanharam de perto diferentes modelos de produção, gestão, nutrição, pesquisa e processamento que fazem parte de uma das cadeias leiteiras mais estruturadas do país.
Mais do que conhecer fazendas, a experiência permitiu observar como diferentes elos trabalham de forma integrada — da pesquisa universitária à produção de alimentos para os rebanhos, das decisões nutricionais à gestão das propriedades e da produção ao processamento do leite. O objetivo foi colocar diferentes realidades lado a lado e provocar uma discussão prática: o que faz sentido para Idaho e, principalmente, o que pode inspirar novos caminhos para a cadeia leiteira brasileira?
Imersão na cadeia leiteira
Gestão, logística e eficiência foram alguns dos aspectos que mais chamaram a atenção durante as visitas. Em uma das propriedades, com cerca de 700 vacas em sistema de confinamento aberto, os participantes observaram como a mão de obra, qualidade da forragem, logística e acompanhamento de indicadores estão incorporados à rotina de gestão.
A programação foi estruturada para ampliar gradualmente a visão dos participantes sobre a cadeia leiteira. As visitas passaram por propriedades de diferentes escalas e incluíram também indústrias de processamento de leite, empresas de alimentação animal e instituições de pesquisa.
“É uma iniciativa impactante para o mercado, primeiramente pela oportunidade inédita de conhecer um formato de produção diferente e, em segundo lugar, pelo número de profissionais alcançados, que certamente trarão impactos positivos para o mercado brasileiro e seus produtores”, comentou Cleomar Hilgert, gerente comercial de Ruminantes na Aleris.
A proposta do evento chamou a atenção de Juliandro Ostapechen, nutricionista da Rumo Nutrição Animal. “Houve uma sequência lógica de evolução de tamanho e eficiência das fazendas visitadas, que foram progressivamente crescentes. Vale lembrar também que, além das fazendas, a integração com a indústria de processamento de leite e as indústrias de produção de alimento para os rebanhos também foi de grande valia, para nos dar a dimensão de quão organizado e integrado são os elos da cadeia leiteira deste estado.”
A experiência foi complementada pelo contato com o ambiente de pesquisa. Na Universidade de Idaho, os participantes acompanharam uma palestra conduzida pela Dra. Izabelle Teixeira e tiveram contato com pesquisas e discussões relacionadas ao desenvolvimento da nutrição animal e às particularidades do mercado norte-americano.
Segundo Cleomar Hilgert, gerente de vendas, o encontro foi a oportunidade de promover um intercâmbio de informações e conhecimentos. “Um dos destaques foi observar os novos desenvolvimentos em pesquisas focadas na melhoria da nutrição animal, direcionadas às necessidades do mercado americano. Também destacaria os modelos de gestão altamente eficazes e a produção totalmente voltada para as especificidades desse mercado”, explicou.
Eficiência não está apenas na produtividade
Outro ponto de destaque observado pelos participantes foi a forma como as propriedades visitadas utilizam diferentes indicadores e ferramentas de gestão para orientar suas decisões. “Me surpreendeu a eficiência no uso da mão-de-obra, a limitação de expansão das fazendas relacionadas à questões ambientais, a padronização das dietas por razões logísticas, a eficiência zootécnica média do estado em questões de longevidade e a valorização atual dos bezerros para fins de produção de carne”, contou Juliandro.
Nutrição, genética e mercado caminham juntos
A alimentação dos animais foi outro exemplo dessa busca por eficiência. Durante a viagem, os participantes conheceram fábricas de alimentação que trabalham com ingredientes disponíveis na própria região e premixes industriais, combinando diferentes alternativas para atender às necessidades nutricionais das propriedades e, ao mesmo tempo, considerar aspectos de custo e logística.
A experiência também dialoga diretamente com a atuação da Aleris no mercado de ruminantes. Os Estados Unidos estão entre os principais mercados da empresa para o Cultron, aditivo baseado em cultura de levedura. A proximidade com essa realidade produtiva amplia as possibilidades de troca de conhecimentos sobre as práticas de nutrição adotadas no país e sobre os desafios da produção de leite.
A escolha genética também evidenciou como as características do mercado influenciam o sistema produtivo. A presença de animais Jersey e seus cruzamentos chamou a atenção dos participantes pelo foco na composição do leite e na produção de sólidos — tema que também aparece entre os desafios apontados para a cadeia brasileira. “Idaho me surpreendeu pelo foco na genética Jersey para produção de proteína, algo diferente do que eu havia observado em outras regiões”, destacou Eder Fernando, sócio-diretor da Brugnara.
O que pode ser adaptado à realidade brasileira?
É justamente a comparação entre realidades diferentes que faz da Aleris Milk Route uma oportunidade de aprendizado para os profissionais brasileiros.
Equilíbrio entre qualidade e demanda
Para Eder, a principal reflexão está na relação entre qualidade e mercado: “Visitar os EUA na cadeia leiteira muda a vida de qualquer profissional. Para mim, o que mais impacta no mercado brasileiro é que ainda não se tem uma definição de que tipo de produto o mercado brasileiro precisa. Outro impacto é a falta de uma política clara e rentável por essa qualidade, mas a cadeia inteira precisa avançar. Saio dessa experiência com a missão de que essas políticas comecem a existir nas indústrias e façam sentido para o produtor”, explicou.
Personalização de rações
Eduardo Lazzarotto, gerente comercial regional da Nutrivital, observa de forma positiva a possibilidade de adaptação das dietas. “A personalização das rações acredito que é uma realidade que podemos aplicar aqui, em uma escala menor. O sistema de produção pode ser aplicado no nordeste do Brasil, por ter um clima parecido. Também podemos pensar no uso de ingredientes alternativos na dieta, no sul do Brasil ainda somos conservadores”, apontou.
Integração industrial estratégica
Juliandro já se vê no papel de impulsionar a indústria brasileira para um caminho mais estratégico, como a bacia leiteira de Idaho: “Precisamos planejar o futuro das micro-regiões leiteiras do Brasil, integrando a necessidade local da indústria e a capacidade dos produtores de produzir em quantidade e nas categorias que esta indústria espera. Pretendo focar em meus clientes a constante necessidade de ampliar a qualidade de leite no que diz respeito à sólidos — em pouco tempo o Brasil passará a valorizar muito mais este aspecto”, comentou.
Aprendizado que atravessa fronteiras
Para Cleomar Hilgert, a experiência também reforça o papel do intercâmbio técnico na formação dos profissionais do setor. “Poucas empresas possuem portas abertas como essas em diferentes países e sabem transformá-las em experiências marcantes para a carreira de seus clientes”, explicou.
Mais do que conhecer diferentes sistemas de produção, o Aleris Milk Route colocou profissionais brasileiros em contato com novas referências de gestão, nutrição, genética, logística e integração entre os elos da cadeia. Ao retornar ao Brasil, os participantes levam não um modelo a ser replicado, mas novos parâmetros para comparar realidades, questionar práticas e identificar caminhos que possam fazer sentido para diferentes regiões e sistemas de produção.
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